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O cenário da Pandemia é desafiador por inúmeras situações inusitadas, além de uma série de consequências. Vivemos uma mescla de medo, tristeza, reflexões e aprendizados. Um desafio atual é a do distanciamento social, recomendado pela OMS, como medida mais urgente para a redução da velocidade do contágio e para o não esgotamento do sistema de saúde. Neste cenário está em evidência a necessidade do cuidado redobrado com os idosos, bem como a nossa dificuldade em orientá-los acerca do autocuidado e de permanecerem em casa. 

Existem inúmeras publicações bem-humoradas nas redes sociais de idosos se recusando a ficarem em casa e deixarem suas rotinas diárias devido a mais um vírus. Como o caso do senhor que desceu uma rua vazia com um carrinho de rolimã, como se quisesse dizer: Eu já vivi muito, e ainda tenho muito para viver. Decidi escrever esse artigo a partir do aprendizado que estou tendo com minha tia, que veio passar férias aqui no Rio de Janeiro, local onde resido, e acabamos “enclausuradas” por conta da política de distanciamento social. Minha tia cuida exclusivamente e em período integral de minha avó paterna de 89 anos, que também está em isolamento com outra tia lá no Rio Grande do Sul. 

Este convívio está me mostrando como é, na prática, os desafios na comunicação com nossos idosos. A minha avó apesar dos desafios da idade, tem uma certa independência e a saúde vai bem. A minha tia é uma mulher que procura sempre se cuidar, e como ela disse: “A exigência com o cuidado com o Idoso não significa que você deve se abandonar”. Em uma das conversas virtuais com amigos, um deles comentou que a avó estava bem, mas ao ser orientada a ficar em casa, expressou que já estava acostumada a ficar sozinha. Essa conversa mexeu com ele, e compartilhei a situação com minha tia, que me questionou: Será que só agora estamos ouvindo nossos idosos? 

A partir do que os idosos estão procurando nos dizer, desejo compartilhar três aprendizados, que a convivência com a minha tia me proporcionou, sendo ela a cuidadora da minha avó e que também não deixa de se cuidar, e que podem ser úteis para o futuro que nos aguarda.

O primeiro aprendizado que desejo compartilhar é ouvir para compreender. Um dos princípios da na Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida pelo Dr. Carl Rogers, é a compreensão empática, que é a capacidade em se colocar no lugar do outro sempre, olhando a pessoa através do seu olhar, buscando se aproximar ao máximo da forma como a pessoa enxerga ou se sente a partir do seu contexto, sem, no entanto, sentir-se o outro (Silva Pinto, 2010)². 

A crise exige que ações urgentes, por parte de toda a sociedade, sejam colocadas em prática. Na tentativa de orientar uma geração que já presenciou inúmeras crises, agimos com as nossas soluções na certeza de que o idoso irá compreender que é fácil abandonar a sua rotina por causa de mais uma crise mundial. Como no caso da minha tia, que precisou falar para a minha avó que ela não poderá frequentar a igreja, que já é parte importante da sua vida, por um bom tempo. 

Segundo a Antropóloga Miryam Gondeberg, em entrevista¹ para o podcast da Folha de São Paulo, não adianta tentarmos dar ordens aos velhos que são lúcidos, ativos, conscientes e inteligentes, como se fossem crianças e que não sabem o que está acontecendo, e mostrar o que é certo e errado. Eles só não sabem o que fazer e como sobreviver nesse momento. Por exemplo, como falar ao idoso que vive sozinho que ele não pode ir ao mercado? Alternativas solidárias que cadastram voluntários com o propósito de apoiar idosos que não possuem ajuda no dia a dia, são explicadas a partir da compreensão empática. 

Rogers era psicoterapeuta e defendia que para ajudar seus pacientes, muito mais do que apresentar soluções para seus problemas, primeiramente era necessário compreender que todo ser humano tem uma tendência natural de evoluir, de buscar o que é melhor para si, mesmo que de maneiras distorcidas, que acabam fazendo se distanciar do que é de fato melhor para ele. Minhas tias, compreendendo a importância das idas a igreja, apresentaram para a minha avó o canal da igreja no Youtube e procuram fazer orações com ela em casa. Compreender o indivíduo de maneira empática, considerando que ele busca o melhor para ele, mesmo de forma distorcida, entendendo suas necessidade e propósitos, favorece a construção de diálogos mais significativos.  

O segundo aprendizado está relacionado com a capacidade de entendermos o cenário macro que nos cerca, para tomarmos decisões e desenvolvermos planos estratégicos no enfrentamento de uma crise. Conhecer dados e estatísticas sobre a população idosa, que aumenta a cada ano, são referências para que toda a sociedade planeje e defina ações que impactam os idosos e consequentemente a economia do país. 

Em relação à saúde física, o Ministério da Saúde³ aponta que 39,5% dos idosos possuem alguma doença crônica e quase 30% possuem duas ou mais.  Todo o ano a OMS divulga prioridades que impactam diretamente a vida do idoso: controle de doenças crônicas, acesso a medicamentos e pandemias. O mercado deve absorver nos próximos anos cuidadores de idosos e Educadores Físicos especializados no público da terceira idade. 

Minha avó tem um personal trainer, que a atende com exercícios funcionais, contribuindo tanto para a saúde física, quanto a mental e emocional. Em uma conversa descontraída com o geriatra, a minha tia comentou que minha avó sempre é simpática com o personal, enquanto com ela, a minha avó sempre tem algum motivo para brigar. O médico explicou que não podemos subestimar o idoso, pois ele sente desejos, admira a beleza de uma pessoa e gosta de ser admirado. Alguns setores da economia, antes da pandemia, já investiam nesse público que deseja se manter ativo, com viagens, estudos e entretenimentos. Mesmo com um futuro incerto e com a redução da renda e do consumo, setores estratégicos precisam considerar que essa população está aumentando e que possui necessidades específicas e particularidades na hora de decidirem contratar um serviço e consumir algum produto.  

Na obra O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez, um dos seus personagens com mais de 90 anos proporciona uma reflexão. Em dado momento ele se entristece devido o suicídio de um amigo de 60 anos, que não queria envelhecer para não depender de ninguém, e também por perceber que a lucidez o faz lembrar que quanto mais dependente ele se tornava, mais se aproximavam as suas últimas tardes. Proporcionar Dignidade e qualidade de vida para a terceira idade são investimentos fundamentais que todos os segmentos da sociedade podem se beneficiar, para que soluções sejam apresentadas tanto para o momento presente, quanto para as futuras gerações de idosos. 

O terceiro aprendizado se refere a educação financeira. A minha avó sempre foi muito dependente financeiramente do meu avô. Ela recebe uma pensão e minha tia conta que é um desafio explicar para ela que o valor do dinheiro muda conforme o tempo. Não é apenas a inflação o motivo, mas conforme o tempo passa as necessidades da minha avó mudam também. Alguns anos atrás ela não precisava de remédios que hoje se fazem necessário, como alguns exames e tratamentos por exemplo. 

De acordo com dados do IBGE, a população brasileira está envelhecendo, porque a expectativa de vida aumentou, e a sociedade precisa estar preparada financeiramente para a aposentadoria e também para imprevistos, como uma pandemia que tem impactado toda a economia. No caso das mulheres, a exemplo da minha avó, elas vivem em média 5 anos mais que os homens, e por isso a importância de ações afirmativas, para que elas conquistem independência financeira. 

A ONU apontou 17 Objetivos para o Desenvolvimento sustentável (ODS)4, que visam conquistar metas em vários segmentos da sociedade, para torná-la mais justa e equânime até 2030, e contam com compromissos de Governos, empresas e sociedade civil para que sejam alcançadas. Uma delas é relacionada a educação financeira, e principalmente devido ao envelhecimento da população. Até 2030, ano que os ODS deveriam ser alcançados, o Brasil estará muito perto de ser considerado um país velho, pois quase 14% da população será idosa. 

Por muitos séculos o ancião era a fonte de sabedoria de muitas comunidades, e eram consultados com frequência para ajudar nas decisões. Com o passar dos séculos, e vivendo um encontro de gerações onde várias convivem ao mesmo tempo, o idoso não é mais a referência de conhecimento para muitas comunidades, mas essa população tem muito para nos falar, expressar e ensinar. 

Com toda essa reflexão que propus, agora a pergunta é: será que no cenário pós-pandemia, poderemos ver uma sociedade mais dedicada em ouvi-lo, proporcionando que essa geração e as próximas tenham verdadeiramente o que precisam e merecem?

 

Referências

1. Entrevista concedida ao canal de Podcast Café da Manhã da Folha de São Paulo, A vida dos idosos sob isolamento social, em 30/03/2020.

2. CARRENHO, E.; TASSINARI, M.; PINTO, M. A. S. Praticando a Abordagem Centrada na Pessoa: dúvidas e perguntas mais frequentes. São Paulo: Carrenho Editorial, 2010. p.62/63.

3. OMS divulga metas para 2019. Site da SBGG. <https://sbgg.org.br/oms-divulga-metas-para-2019-desafios-impactam-a-vida-de-idosos/> acessado em 15/04/2020.

4. Agenda 2030. Site da ONU Brasil. <https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/>. Acessado em 20/04/2020.

 

 

Jane de Moraes Ilha, Bacharel em Economia pela UFPR, Pós-Graduada em Gestão Empresarial pela FGV e Finanças pela FESPPR e Certificada CEA. Artigo teve contribuição de Daniela Araújo Ilha, Licenciada em História e Cuidadora de Idosos certificada.