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Diversidade

Por: Clóvis de Barros Filho, em 15/10/2020

Respeito

Uma reflexão sobre esse sentimento.

Orgulho para afirmar que não há vergonha. A sexualidade é um tema ainda tabu e ser uma pessoa LGBTI+ (lésbica, gay, bissexual, mulher ou homem trans, travesti ou intersexual), ainda é encarado por muita gente como algo imoral, reprovável e inaceitável.

Por que acham que é imoral? Alguns dizem que é uma opção, como se estivéssemos falando da escolha por um estilo de vida. Dizem que as pessoas só podem estar no mundo como machos ou fêmeas, reduzindo nossa humanidade à dimensão biológica. Qualquer coisa fora disso, é confundida como outras questões que estão no campo da moral.

Não podemos nos reduzir à nossa dimensão biológica. Somos seres biopsicossociais! Na cultura, realizamos escolhas sobre o que é ser homem e mulher, como nos vestir, como construir os espaços que habitamos, o que podemos e o que não podemos fazer no mercado de trabalho, entre tantas outras escolhas que se tornam padrões, às vezes rígidos, transmitidos de geração a geração na vida em sociedade. Por isso falamos em gênero, como algo que contém aspectos biológicos, mas vai além e envolve essas escolhas, a definição de modos de ser, papéis e expressões variadas.

O termo orientação sexual é mais humilde e menos pretencioso do que a afirmação contida no termo opção sexual. Orientação quer representar um conjunto de motivos para a pessoa ser como ela é em termos de sua heterossexualidade, bissexualidade ou homossexualidade. Veja que todos possuem uma orientação sexual, uma forma de ser do ponto de vista afetivo e sexual.

Não se trata de uma escolha sobre algo tão importante na nossa existência. Veja também que não é apenas sexo, mas amor, afeto, uma ligação tão forte e capaz de manter duas pessoas unidas por toda uma vida. Não se trata, ainda, do ato sexual. Uma pessoa pode morrer virgem e ainda assim é heterossexual, por exemplo. Será uma questão biológica, uma questão da cultura, influência do ambiente, uma predisposição genética?

Enquanto a ciência não consegue responder essas e outras questões, tudo indica que cultivarmos uma relação positiva, construtiva, inclusiva, respeitosa e segura consigo e com os outros, parece ser melhor do que o julgamento apressado, a repreensão e até mesmo a violência contra si e contra os outros.

Por que orgulho? Para dizer que se libertou dessa opressão que padrões únicos e impostos significam na vida de quem é pessoa LGBTI+. Antes de qualquer explicação da ciência, o entendimento pleno sobre o ser humano em sua diversidade sexual, é importante que as pessoas se aceitem como são e pratiquem respeito na convivência. É algo básico para as pessoas LGBTI+ viverem bem consigo mesmas e com o mundo.

Falamos da orientação sexual e não falamos ainda da identidade de gênero. É outra questão. Quando nascemos, geralmente olhando apenas para os órgãos sexuais, atribuem à pessoa um sexo e um gênero. Dizem se somos machos ou fêmeas (biologia) e se teremos um nome de homem ou de mulher, se usaremos azul ou rosa, se teremos lacinho no cabelo ou roupinha de marinheiro (gênero), entre várias outras formas de nos identificar. Nem sempre a pessoa se identifica com o sexo e com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer. Na cabeça, a pessoa sabe que é diferente do que está afirmado e busca se identificar de outra forma, alterando ou não seu corpo ou suas maneiras de expressar seu gênero.

Todas as pessoas possuem uma identidade de gênero. As que se identificam com o sexo e o gênero atribuídos são pessoas cisgênero. As que não se identificam, podem ser pessoas transgênero (travestis, mulheres e homens trans). Há também quem não se identifique com nenhum dos dois e são pessoas andróginas, não-binárias (ou homem ou mulher), entre outras possibilidades de afirmar identidades, maneiras de ser e de estar no mundo.

Uma sociedade que preza o respeito antes de querer entender ou até mesmo de impor o “jeito certo de ser”, ajudará as pessoas a passar por esta descoberta e adequação ao que está em sua mente de maneira mais simples, menos dolorosa, mais saudável e acolhedora para elas e para todos. Por que tanto incômodo com uma pessoa que está em busca dela mesma e, como todos, quer ser feliz da maneira que ela se entende como pessoa? Por que uma pessoa não pode ser o que ela quer ser se isso é algo tão básico para uma vida saudável?

Usar a religião ou mesmo a ciência para impor a outra pessoa uma única maneira de ser, é uma forma de violência que deveria exigir mais reflexão. Se a minha religião não permite algumas coisas, com base no entendimento que ela possui sobre a vida, terei direito de tornar a vida do outro infeliz ou até de praticar violências das mais variadas contra essas pessoas?

Nas empresas, essa imposição aparece quando alguém solicita aos líderes que demitam um colega de trabalho por ser pessoa trans ou travesti, criando um constrangimento, no mínimo, para todos. A liderança não realiza escolhas com base nos valores individuais, mas nos valores da empresa, com os quais se identifica para estar ali, assim como deve acontecer com todos os demais profissionais. Valor é o que pesa na hora de realizarmos escolhas, de tomarmos decisões, portanto, valores sintonizados com direitos humanos, como são, em geral, nas empresas, deveriam ser motivo para nos encontrarmos, convivermos, olhando para o que é essencial e não superficial. Se a pessoa transgênero ou cisgênero é um mau profissional, desonesto, assediadora, deveria importar mais do que sua identidade de gênero, que é algo próprio dela e não escolha imoral que fez um dia na vida.

E as pessoas intersexo ou interesexuais? Elas podem nascer assim ou adquirir, por doenças ou outros motivos, uma variação em seus órgãos genitais que não permitem afirmar se são homens ou mulheres, de acordo com aquela visão estreita da biologia e, ainda mais, a visão sobre gênero. Antigamente se utilizava o termo hermafrodita, mas a comunidade de pessoas intersexo entendeu que este termo é mais respeitoso e ajuda a compreender melhor sua condição.

O órgão sexual pode não ter aparência indefinida, mas a pessoa possui cromossomos XX ou XY diferentes do padrão tido como normal, assim como anatomia reprodutiva (útero ou testículos), entre outros aspectos, diferentes de seus órgãos sexuais. Não é porque algo é comum ou da maioria que pode ser considerado normal, não é mesmo?

Mais sofrimento acontece com pessoas que, às vezes, levam anos para entender que sua genética está dizendo uma coisa e seus órgãos sexuais estão dizendo outra, gerando uma situação muito semelhante à da identidade de gênero.

Tudo que é relacionado às pessoas é mesmo complexo, fluído, impossível de ser definido de uma forma ou de outra, mas de muitas maneiras. A vida é bela! Porém, com medo do diferente ou para poder controlar melhor, queremos determinar o que é normal e anormal, interferindo até mesmo no que é comum (em geral, relacionado a números, estatísticas), para tornar uma maioria em minoria, sem o respeito da sociedade. A diversidade é o segredo da vida, então, por que tentar sumir com ela se é nossa maior riqueza?

Por isso o “+” no final da sigla. Somos isso, aquilo e muito mais. É impossível fazer com que qualquer ser humano seja definido totalmente e com precisão, cabendo em uma caixinha identitária única e exata. No campo da sexualidade, a primeira Parada do Orgulho LGBT do mundo de que se tem notícia, em 1970, inaugurou uma forma festiva de celebrar a diversidade sexual.

O dia 28 de junho é o momento de refletirmos sobre esses temas complexos e, portanto, difíceis. É também o momento de reafirmar o básico: não precisa entender para respeitar; não precisa tornar a outra pessoa à sua imagem e semelhança para respeitar; não precisa amar e fazer amigos, mas é obrigação respeitar. Pode até ser difícil, mas não é impossível. Vamos celebra a diversidade, o respeito, a importância de se dar valor e ter orgulho de sermos quem somos.